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Mente que mente

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By kadu 20 de setembro de 2010

*Por Darson Ribeiro

“A mente ensaia, prepara, justamente porque não temos confiança na nossa capacidade de agir...” Esta frase poderia estar no texto do premiado norte-americano Sam Shepard: “A Lie Of The Mind” (Mente Mentira), mas faz parte de um embate psicológico na minha peça “Sangue na Barbearia”. O medo lá se alia a uma loucura aparente das personagens, para que estas possam ter uma válvula de escape e terem fôlego pra buscarem a realidade. Aqui, o medo é provocado. É ele que vem como uma espécie de salvador de uma realidade amorfa, cruel e violenta que leva duas famílias ao grau extremo do sofrimento. O ciúme é o pivô, e é ele que por meio de um espancamento, permeia a peça do começo ao fim: não só o sexual, carnal, entre o casal principal Jake (Malvino Salvador) e Beth (Fernanda Machado), mas em tudo que de unidade e/ou dualidade possa envolver dois seres – das duas famílias - contrapondo justamente o que a mente cria ou que de fato existe. Qual é o melhor caminho? Só não dá pra esquecer que esta mesma mente pode unir ou destruir. E diante do medo de quem a utiliza, muitas vezes provoca com tamanha certeza, que o provocado acaba por encontrar um resultado positivo – ou no mínimo apaziguador – mesmo que não queira. Ou não saiba. Ou ainda que para isso seja obrigado a viver no umbral por um bom tempo até emergir novamente – num feliz menor, porém verdadeiro. O bem e o mal não são tão absolutos assim, mas Shepard apresenta essa dicotomia com maestria de um Chef, que em detalhes entrega de bandeja uma obra-prima de lamber os beiços.

Paulo de Moraes segue à risca esse virtuosismo, com uma direção minuciosa, rica em composição de personagens e em detalhes cenográficos (dele e de Carla Berri) que só colaboram para o resultado drástico que a história exige. É como se as personagens acordassem de um pesadelo, e ao se flagrarem o preferem preterindo o acordar monocórdio, pesado e enfadonho que o passado (de anos ou de minutos atrás) insiste em fazê-los encarar. O cenário único, subdividido e super-utilizado é a prova disso.

Levando em consideração um primeiro forte trabalho teatral de Malvino, ele passa incólume, sem escorregar no esforço pra se fazer inteligível pra ir de encontro ao tema escolhido por ele mesmo, e que, sem dúvida, merece o apoio do espectador; Fernanda Machado legitima uma interpretação com talento e humildade em cenas de alto risco; assim como Malu Valle, que em cenas curtas, entradas ou saídas mínimas ou “bifes” tem o tom, a dose de humor e de raiva certeiros; Marcos Martins e Augusto Zacchi compõem o elenco com correção, mas, sem muito nuances; Keli Feitas é quem mais deve “correr atrás”: falta vigor à irmã desprezada Sally. Mas, é em Zé Carlos Machado e Roza Grobman que o clima tenso do estilhaçamento daquelas vidas vem à tona e se apropria. Especialmente ele está em simbiose com a atmosfera de Shepard e da direção e faz o público nela imergir – como se deixando caçado por ele.

Os figurinos de Rita Murtinho e a Luz de Maneco Quinderé são excelências. Vale citar a música original de ótimo gosto de Ricco Viana, e o desenho corporal que Patricia Selonk cuidadosamente compôs, dando mais verocidade e beleza àquela estética cênica. O espetáculo é um primor.

A PEÇA ESTÁ EM CARTAZ NO TEATRO RAUL CORTEZ: RUA DR. PLÍNIO BARRETO, 285 - ATÉ 31 DE OUTUBRO.

SEXTA E SÁBADO: 21h30 / DOMINGO: 20h

PREÇO: R$60 A R$70

Posted in: DicasArte