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BLOG BY KAMY | O que faz uma pintura abstrata de Hilma af Klint nos parecer tão familiar?

BLOG BY KAMY | O que faz uma pintura abstrata de Hilma af Klint nos parecer tão familiar?

Davi by Kamy 6 views Nenhum comentário

Talvez essa tenha sido uma das primeiras perguntas que nos fizemos diante das obras da artista sueca, que visitamos no Grand Palais, em Paris. Suas pinturas não mostram mulheres, corpos ou cenas femininas de maneira literal. Mas, ainda assim, flores, sementes, espirais, formas ovais e símbolos que remetem ao corpo feminino parecem nos falar de algo muito próximo da criação, da transformação e da própria vida.

Hilma e sua pesquisa de cor e forma

A pesquisa de Hilma af Klint (1862-1944) sobre cores, formas e símbolos é um dos pontos que chamou a atenção da by Kamy e direcionou nossos olhos para essa artista. Em suas pinturas, cores intensas, formas geométricas e elementos orgânicos se combinam para criar uma linguagem visual própria, construída a partir de relações entre gênero, a natureza, a espiritualidade e a transformação.

Hilma criou um sistema de símbolos em que o feminino e o masculino aparecem como forças complementares: o azul associado ao princípio feminino, o amarelo ao masculino e o verde como resultado da união dos dois. Essa investigação cromática dialoga intimamente conosco, já que a variedade de cores e formas também ocupa um lugar central na criação de um tapete. A nossa pesquisa cromática vai muito além do “modismo” e tem suas raízes na técnica e na riqueza cultural de vários artistas. No acervo da by Kamy, temos, por exemplo, as peças Yu Li Min, com um forte visual modernista tropical; o Girocolor, com seu design dinâmico e variações de tons que criam a sensação de movimento giratório, o que nos remeteu à obra Series VII, No. 7d, de Hilma; o tapete Sky, repleto de nuances e gradientes de cor; além das nossas ilustres peças Tarsila do Amaral, com uma paleta vibrante e rica em cultura brasileira.

Quando uma pintura passa a ocupar quase todo o nosso corpo

A escala da série The Ten Largest (As Dez Maiores), Grupo IV, de 1907, mudou completamente nossa relação com as obras. Diante de pinturas com cerca de 3,15 metros de altura, sentimos que um mergulho era inevitável. Elas deixaram de caber apenas no campo da visão e passaram a nos envolver fisicamente. As espirais pareciam crescer, as flores se expandiam e as formas se multiplicavam nessa série criada para representar quatro fases da vida: infância, juventude, idade adulta e velhice.

Talvez tenha sido justamente aí que encontramos parte da força dessas obras. Diante delas, não sabíamos exatamente o que estávamos vendo. Uma célula? Uma semente? Uma flor? Um organismo? Um universo? A pintura não nos dava uma resposta. Em vez disso, nos fazia procurar uma dentro de nós.

Como surgiu a linguagem de Hilma?

Foi dentro de um grupo de cinco mulheres chamado De Fem que Hilma começou a desenvolver uma linguagem própria para traduzir aquilo que acreditava perceber para além do mundo visível.

A partir dessas experiências, uma criação secreta e radicalmente nova, influenciada pelo espiritismo, pela teosofia e por suas vivências mediúnicas, começou a tomar forma. Espirais, círculos, formas geométricas e feixes de luz passaram a compor um vocabulário visual próprio. Sua inventividade na criação de símbolos e figuras faz com que ocupe um lugar singular na história da arte. Hilma desenvolveu uma linguagem abstrata antes mesmo de a abstração se consolidar como um movimento reconhecido na arte moderna.

Por que suas obras parecem tocar tantas mulheres?

Hilma fala do feminino sem precisar representar mulheres, corpos ou cenas femininas de maneira literal. As flores e as formas orgânicas acompanham diferentes fases da vida. Em outras obras, a flor aparece associada à fecundidade, enquanto determinadas formas são relacionadas ao feminino.

Talvez tenha sido justamente essa combinação entre o que reconhecemos e o que permanece aberto que nos aproximou de suas pinturas. Elas não apresentam uma imagem pronta do feminino, mas sugerem ideias de criação, transformação, fecundidade e passagem do tempo. São temas que podem encontrar uma ressonância particular entre muitas mulheres, sem deixar de despertar identificações e interpretações diversas.

O olhar brasileiro sobre a obra de Hilma

Em 2018, a Pinacoteca de São Paulo apresentou Hilma af Klint: Mundos Possíveis, com curadoria de Jochen Volz e Daniel Birnbaum. A exposição nos ajuda a compreender a complexidade do universo que a artista construía.

Volz chamou a atenção para um aspecto essencial de sua produção: “Hilma não separava ciência, espiritualidade, religião, natureza e símbolos.” Tudo podia coexistir na mesma imagem. Essa perspectiva nos faz olhar para suas pinturas não em busca de uma tradução única para cada elemento, mas como um campo em que diferentes referências e possibilidades convivem.

Talvez seja por isso que sua obra continue tão aberta. Ela nos parece familiar e, ao mesmo tempo, impossível de decifrar completamente. E talvez essa seja uma das razões pelas quais, mais de um século depois de terem sido criadas, suas pinturas ainda nos fazem parar diante delas e perguntar: o que estamos vendo e por que isso nos parece tão próximo?

Uma fala de Hilma sobre seu processo de criação

“Os quadros foram realizados diretamente através de mim, sem nenhum desenho preliminar e com grande força. Eu não tinha ideia do que as pinturas iriam representar; porém, trabalhei com rapidez e segurança, sem mudar uma única pincelada.”

— Hilma af Klint

O Moderna Museet registra que cada uma das obras de The Ten Largest (As Dez Maiores) levou cerca de quatro dias para ser realizada. As pinturas foram feitas sobre grandes folhas de papel, posteriormente montadas sobre tela.

E pensar que essas obras foram criadas em 1907. O que havia nelas, há mais de um século, que ainda nos parece tão atual? Talvez essa seja uma das perguntas mais interessantes que levamos conosco depois de conhecer Hilma: como imagens criadas em outro tempo continuam nos provocando, despertando novas leituras e encontrando espaço em nosso olhar?

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