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OLHE PRA TRÁS COM OLHOS DE FUTURO

22 de julho de 2010

"Olhe pra Trás com Raiva", peça com direção de Ulysses Cruz, é uma espécie de autobiografia do escritor John Osborne.

Por Darson Ribeiro*

É por ter "vivido por viver" numa penúria do pós-guerra que Jimmy, personagem de Sérgio Abreu, "Olha Pra Trás Com Raiva". Sem olhos para o futuro, e sem saber direito a razão da sua revolta, passa dias e dias com sua carroça de doces, teimando contra o morno da existência, rejeitando padrões, incluindo o da esposa Alisson (Karen Coelho), que largou a vida aristocrática da família pra dividir com ele um quarto e sala. Ela o ama e o suporta. E suporta também a relação lasciva com o amigo Cliff (Thiago Mendonça).

A tradução de Marcos Daud torna os monólogos raivosos de Jimmy ainda mais profundos, mas na boca de Abreu saem sem tanta força. Se a peça estreou sacudindo o morno dos palcos britânicos na época, com o ator Kenneth Haigh no papel principal com apenas 27 anos, em 1958, aqui, Ulysses Cruz apostou no galã televisivo Abreu, com 35. Sérgio passou por quase todas as emissoras fazendo novelas, mas pouquíssimo pelo palco. Assim, não consegue aproveitar a densidade do texto e as mãos fortes do diretor no realismo de tirar o fôlego de John Osborne, que inclui um cenário e-xa-ge-ra-da-men-te claustrofóbico de cores cinza, criado por Milton Di Biasi. Nessa verborragia é o figurino de Beth Filipeck e Renaldo Machado que dá o tom, respeitando época, gostos, elegância e o simplório daquelas vidas sem muito futuro. Este finge ter chegado embalado pra presente pelas mãos da melhor amiga de Alisson, Helena, vivida por Maria Manoela. Em minutos, a contradição e as mentiras saem da caixa, e só acentua as divergências de classes sociais, visão de mundo e de caráter. Fica uma impressão plana demais de uma época tão marcante. O teatro realista talvez esteja ainda um pouco distante do que estes bons atores possam entender dele, e apresentar ao público.

O texto é autobiográfico. O autor viveu semelhante angústia com esposa, pais e com a mediocridade – motivo maior ainda de uma pesquisa original da raiva da personagem principal, mas que ficou medido nas palavras e não no íntimo sentido. É como se anos e anos depois da devastação da guerra, as lembranças se tornassem narrativas apenas, sem muito incomodar a razão que ele luta tanto pra viver.

OLHE PRA TRÁS COM RAIVA

EM CARAZ ATÉ 22/08

ONDE: Teatro Vivo - Av. Dr. Chucri Zaidan, 860 - Morumbi

HORÁRIO: Sextas, as 21h30; Sábados, as 21h; Domingos, as 19h.

INGRESSO: R$ 40 as sextas e domingos, R$ aos sábados.

TEL.: (11) 2626-0867


*Darson Ribeiro é ator, produtor, e crítico teatral do DCI Shopping News e do Portal Onne.

Leia outras de suas críticas:

VIÚVAS DOROTEIAS: http://www.onne.com.br/conteudo/13568

SOMOS TODOS PAIS: http://www.onne.com.br/conteudo/13417

MEU AMIGO, CHARLIE BROWN: http://www.onne.com.br/conteudo/12859

Posted in: DicasCultura